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“Pior coisa que já senti”: 4 relatos de quem se curou da Covid-19


Com a expansão da pandemia da Covid-19, sintomas como dificuldade para respirar, febre e cansaço são repetidos diariamente, dominando as redes sociais, a tevê e as rodas de conversas dos brasileiros. Mas a doença, causada pelo novo coronavírus, têm aspectos sociais que a diferenciam de outros pares, como a gripe e a dengue. Um deles, em particular, abala o emocional de quem recebe o diagnóstico positivo: o isolamento obrigatório.

Além de sofrer com o ar que não chega aos pulmões e o mal-estar que domina todo o corpo, quem recebe o resultado positivo precisa se afastar imediatamente de amigos e familiares, sobretudo daqueles de grupos de risco, como idosos e hipertensos. O contato reduzido a zero é incomum na rotina de um povo acostumado a apertos de mão, abraços, beijos e encontros. A notícia da cura, então, vem como um acalanto em tempos difíceis.

Ao Metrópoles, quatro brasileiros que superaram a doença contam detalhes do que viveram. Em uma demonstração de empatia, a maioria deles pede, em coro: fique em casa. Não apenas pela total recuperação, mas para evitar que mais pessoas sejam infectadas e passem por situação semelhante.

“Doença muito solitária” 
Primeira paciente curada da Covid-19 no Distrito Federal, Daniela Teixeira (foto em destaque) guarda o documento que atesta o fim de sua doença como símbolo de uma vitória pessoal.

Ela descobriu que fazia parte da assustadora estatística de infectados da pandemia em 16 de março. “Os sintomas persistiram por quase uma semana e foram leves, similares ao de uma gripe: dor no corpo, dor de cabeça e mal-estar generalizado”, lembra.

A suspeita de que estaria com coronavírus surgiu quando uma amiga testou positivo para a doença. As duas participaram, juntas, de um congresso em Fortaleza, no Ceará, no início deste mês.

“Receber a notícia foi quase como ouvir uma sentença de morte. O mundo está parando devido à pandemia e tudo nos noticiários são tragédias”, revela.

Ela, o marido e os dois filhos, com idades entre 17 e 6 anos, imediatamente foram orientados a entrar em isolamento social. Mesmo com a cura, a recomendação dos médicos que acompanham o caso de Daniela é que ela e os familiares permaneçam reclusos até o dia 1º de abril.

“O grande problema da Covid-19 é que você não sabe até onde os sintomas vão evoluir. Longe de ser uma gripizinha qualquer. Tenho três amigas na UTI, uma em estado grave”, comenta.

A moradora do DF liberou os funcionários que a ajudavam com os afazeres domésticos. Agora, recebe apoio apenas da mãe e da irmã para realizar as compras de supermercado. “Elas deixam os mantimentos do lado de fora da casa, no portão”, conta.

Segundo ela, os maiores desafios da quarentena são manter a saúde mental e explicar à caçula o porquê da pausa nas demonstrações de afeto, ou seja, nos “abraços e beijinhos”.

“É uma doença muito solitária. Assim que recebi o diagnóstico, me desconectei das redes sociais para não ver notícias trágicas e passei a me dedicar a hobbies, como ler e cuidar do jardim. Sobre minha caçula, a dificuldade foi explicar a ela o afastamento. Moramos, sim, sob o mesmo teto, mas, durante o período ativo do vírus, evitei contato para reduzir os riscos de contaminá-la”, explica.

Para quem acaba de receber o diagnóstico, Daniela aconselha: “Mantenha a serenidade. Ouça músicas, veja séries e leia livros. Evite o bombardeamento de notícias da doença. Agarre-se à positividade e busque relatos positivos de quem já se curou”.

“Dores e falta de ar eram preocupantes”
O publicitário Peu Kuyumjian, de 42 anos, foi considerado o primeiro caso de Covid-19 em Cotia, região metropolitana de São Paulo, estado que, até o momento, soma mais de 1,2 mil infectados.

O diagnóstico positivo veio em 13 de março, após um dia inteiro sentindo febre, dor de cabeça e “moleza”. Três dias depois, a esposa Juliana também foi confirmada portadora da doença.

Os dois são casos de transmissão comunitária, pois não sabem como contraíram a doença nem mantiveram contato recente com alguém que viajou. Na semana do diagnóstico, perceberam que os filhos, de 5 e 1, apresentaram febre – as crianças também estavam com o vírus. “Para eles, foi mais ameno. Comigo e com a Juliana, as dores no corpo e a falta de ar eram fortes e preocupantes.”

Com esse cenário e as orientações da Secretaria Municipal de Saúde, decidiram que o melhor seria ficar em casa, acompanhando os sintomas da doença. Um dos motivos era o receio de os pequenos transmitirem o vírus para outro familiar.

“A orientação foi permanecer em casa por 15 dias e tomar antibiótico. Ontem (27/03), em tese, terminei minha ‘quarentena’. Não sinto mais os sintomas, já comuniquei à secretaria e a recomendação que me deram foi bem geral, para retomar a vida e continuar seguindo as orientações passadas para todos os cidadãos. Chegaram a falar que estou imune. Eu acho que eles estão meio perdidos ainda”, contou Peu.

Como os testes capazes de confirmar a presença do vírus estão escassos, Peu decidiu não ir ao hospital para comprovar a superação da doença e pretende continuar em isolamento por um bom tempo. “Não quero me expor de novo. Quem tem condições de ficar em casa deve ficar. Assim, protege a si e ao próximo.”

“Pior coisa que já senti”
Juliana Prata Kuyumjian, esposa de Peu, relata os momentos de dor e desespero vividos durante a quarentena. “Teve um dia que tive crise de choro. A dificuldade para respirar era horrível, a pior coisa que já senti. Eu puxava o ar e ele não vinha, a garganta ficava quente. Comecei a ficar bem preocupada”, recorda.

O fato de uma das vizinhas do casal também ter contraído a doença, que evoluiu para pneumonia, deixou a paulistana de 36 anos ainda mais aflita. “Cogitei ir ao hospital várias vezes, não sabia se estava sendo displicente ou não. A Covid-19 é assim, um dia você acha que melhorou um pouco, no outro você fica mal de novo”, diz.

“Cansaço me impedia levantar da cama”
A carioca Roberta Arigoni, de 42, está acostumada a viver rodeada de pessoas. A advogada e agente imobiliária tem uma rotina agitada e circula entre artistas e empresários. Foi em uma viagem à Itália, aliás, que contraiu a doença. O diagnóstico veio no dia 5 de março.

Ela voltou das férias, na qual também passou por Paris, com febre e dor de cabeça intensa. “Senti um cansaço que me impedia de levantar da cama. Porém, achei que era sinusite”. Como havia estado na companhia da cunhada, que testou positivo durante o período no exterior, Roberta se submeteu a exames. Tanto o dela quanto o da filha, Francisca Niemeyer, de 14, outra companheira na viagem, deram positivo.

“Os três maiores desafios do isolamento são o medo de uma doença desconhecida; o seu médico não poder te ver pessoalmente, a não ser que você tenha uma piora; e a parte psicológica. Dá um certo pânico e, às vezes, você sente sintomas que nem são reais. Paranoia mesmo.”

“Tive bastante dor de ouvido. Acho que, por causa dela, acredito ter passado por uma labirintite. Foi bem assustador. Os sintomas passaram em cinco dias. Em seguida, senti cansaço por uns 10 dias”, recorda.

Com a resposta de que havia sido curada, fica a lição: “Aconselho a todos que possam a ficar em casa e fazer os procedimentos de higienização indicados”, recomenda.

Do Metrópoles

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